domingo, 3 de outubro de 2010

A MEMÓRIA COLETIVA E O ESPAÇO

Quando estou lendo e reconhecendo tudo aquilo que o autor me diz é como se eu, de alguma forma já tivesse percebido isso, já tivesse pensado nisso, ou apenas concordo porque acredito ser coerente, pois também sinto que os objetos que colecionamos e a forma como os dispomos nos denunciam os gostos, as crenças, os valores.

Não há como não pensar em mim mesmo, quando penso nessa imobilidade-estabilidade homem-espaço de Halbwachs. A imagem que tenho quando vou a determinados locais me fazem pensar nos momentos vividos por determinados objetos antigos ou não. A solidão dos homens faz desejarmos objetos falantes como nos desenhos animados ou até dizemos a quem nos acompanha: se esse lugar falasse, gritaria! Devido a inúmeros momentos vividos em algum ponto de sua área. A pracinha gritaria, o banquinho denunciaria, aquela árvore cochicharia, o poste berraria e tantos outros cúmplices da rua, da praça, da casa, do quarto. Parece doidice do Homem, mas como ser social o Homem quer se comunicar até com as coisas inanimadas, e deseja tanto que acaba por imaginar que as coisas inanimadas são suas cúmplices. Entretanto, o bom está em saber que as coisas e os lugares nunca nos denunciarão. A não ser se nós deixarmos rastros e pistas. Pense num camarada fiel (as coisas)? Olho para minha vaquinha (um cofrinho de gesso) e, com o olhar, peço segredo de tudo que acontece na sala quando estou sozinho com ela. E desafio aos outros (móveis imóveis) a fazerem o mesmo. Loucuras a parte, somos todos normais. Jogue a primeira pedra quem nunca conversou com seus pertences.

Lembro bem da sensação ao chegar a casa onde minha família morava alguns dias depois da morte de meu pai: a casa era a mesma, os móveis os mesmo, mas parecia outra casa como se a falta do dono despersonalizasse a casa. Foi como se a casa estivesse me dizendo “sinto muito, seu pai foi embora.” E a mesma sensação de não pertencimento ao bairro, a rua na qual passei a infância e o começo da adolescência. Ainda trago comigo uma memória coletiva daquele espaço, porém não tenho mais identificação com ele. A rua, o bairro, as casas e as pessoas parecem estranhas. Meu bairro agora é outro. Até “minha” cidade agora é outra. Sinto-me um turista em Fortaleza e sinto-me em casa, quando estou em João Pessoa.


Acredito que a passividade dos grupos de que fala Halbwachs tem haver com o sentimento de pertencimento que molda a identidade individual e coletiva. Essa passividade talvez seja um ponto de equilíbrio diante dos vários movimentos que impelem o indivíduo e o grupo a uma mudança contínua, mesmo sabendo que tudo muda incessantemente, pois há um processo de desgaste tanto para grupos humanos quanto para os objetos inanimados.


Mas o autor também relembra que o espaço é apenas um dos elementos que influenciam a memória coletiva dos indivíduos, existem outros: os graus de parentesco, as relações de trabalho, as crenças religiosas, ou seja, há outros tipos de formações sociais que interferem e se superpõem para formar a memória coletiva.


O autor segue no texto enumerando enes situações em que o espaço interfere/influencia na memória coletiva.


Nenhum comentário:

Postar um comentário